segunda-feira, 29 de março de 2010

De Louise Borgeouis para Denise Stoklos


A peça "Faço, Desfaço, Refaço" de Denise Stoklos parte do diário da escultora Louise Borgeouis para sua construção. O resultado é de tirar o fôlego. A grande atriz Denise Stoklos, sozinha em cena, no meio de um cenário construído pela própria escultora, fala sobre arte e vida de uma forma tocante.
As duas artistas em comunhão e numa única voz. Alguns fragmentos do diário de Louise:

"Eu sou o que faço"

"Meu trabalho tem a ver com o desafio à autoridade (autoridade emocional simbolizada pela geometria). O deus que falhou."

"A arte, em todas as formas, é um dispositivo regulador, um dispositivo de sobrevivência. O público é desnecessário. A comunicação é rara; a arte é uma língua, como no Ocidente a língua chinesa. Quem entende?"

"A arte é um privilégio, uma benção, um alívio. Nascer artista é ao mesmo tempo um privilégio e uma maldição. Privilégio porque quer dizer que você é um favorito, que o que você faz não é completamente seu crédito, nem se deve completamente a você, mas um favor que lhe foi concedido. É um privilégio fantástico ter acesso ao inconsciente. Eu tive de merecer esse privilégio e exercê-lo."

"Faço escultura por necessidade, não por diversão. Não me divirto nem um pouco - na verdade, tudo o que faço é um campo de batalha, uma luta até o fim."

"A emoção é uma presença erótica, aquela sensação de tudo ou nada. Ou você resiste, ou cede."

"Perdoa e esqueça, dizem. Eu não perdôo nem esqueço. Este é o mote que abastece meu trabalho."

domingo, 7 de março de 2010

citando oswald

"A massa ainda vai comer do biscoito fino que eu fabrico."

Oswald de Andrade

- em resposta àqueles que acreditam que o povo só gosta de Zorra Total.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Resposta aos Mestres

O que está abaixo já explica tudo. Importante agora é a gente discutir!


(resposta do ator, criador e fundador do Espanca! à entrevista feita com Pedro Paulo Cava e Jota Dângelo no Estado de Minas, dia 31-01-10)


RESPOSTA AOS MESTRES

"Li, domingo último, uma entrevista concedida por dois ícones do teatro belorizontino ao jornalista Ailton Magioli, do jornal Estado de Minas. Pedro Paulo Cava e Jota Dangelo estão lançando livros sobre a história do teatro na cidade e isso muito me alegra. Nessa entrevista, os mestres falaram sobre a produção teatral de BH, sobre a Campanha de Popularização, o papel da crítica, as leis de incentivo e o teatro de grupo. Ao terminar de ler esta entrevista - com perguntas muito pertinentes, por sinal - tive certeza de que os leitores do jornal precisavam de outra visão sobre o panorama teatral da cidade. Espero, com esta "resposta", contribuir com a divulgação de uma idéia de cultura e principalmente, de sociedade, que o teatro de grupo (chamado por eles de “teatro charada”) pretende difundir. Para isso, após breve introdução, respondo às mesmas perguntas respondidas por Cava e Dangelo. Espero falar em nome de meu grupo, o espanca!, de grupos amigos e de artistas independentes que, como nós, lutam por políticas públicas de fomento à produção e investigação artísticas e pela garantia do direito constitucional de acesso à cultura.

Muito prazer, meu nome é Gustavo Bones, sou ator de teatro. Há quase 6 anos, fundei junto a artistas que admiro muito, o grupo espanca!. Eu, Grace Passô, Marcelo Castro e vários parceiros de diversas áreas das artes de Minas e do Brasil, criamos três espetáculos que, além de vencerem os principais prêmios de Belo Horizonte e do Brasil, participaram dos mais importantes festivais de teatro do país e foram vistos por mais de 55.000 pessoas, em aproximadamente 50 cidades de 12 estados brasileiros e em Berlim, na Alemanha. Mas estes números não são o mais importante para nós. O mais importante é que estes espetáculos são fruto de uma intensa reflexão coletiva sobre nossa condição de estar no mundo e sobre a arte teatral. Esperamos com eles suscitar nossos espectadores a também refletirem sobre si e sobre nossa vida em sociedade. E através deles, nos posicionamos ética e esteticamente num país em que, julgamos, constrói lentamente uma idéia de cidadania. E queremos contribuir com essa caminhada. Uma caminhada que devemos, todos os brasileiros, fazer em grupo.

Foi ainda adolescente, ao assistir trabalhos como "Romeu e Julieta", do Grupo Galpão, "O Homem da Cabeça de Papelão", do Grupo Trama, "A Hora da Estrela", da Cia. Acaso e “Lusco Fusco” da Cia. Acômica, que vi que o teatro pode ser uma obra de arte feita em conjunto, reflexo de ansiedades artísticas de atores, diretores e demais criadores e que assim, comunique um posicionamento crítico diante do mundo. Foi com Chico Pelúcio, do Grupo Galpão e Cida Falabella, da ZAP 18, que aprendi a me posicionar como artista, a dialogar para construir e que é preciso ter um compromisso com o que se diz no palco. Foram nos grupos de teatro de Belo Horizonte que eu e meus companheiros do espanca! nos formamos. E foi em nosso grupo de teatro que descobrimos, juntos, maneiras de criar espetáculos que vão além do simples divertimento."


Gustavo Bones


O que melhorou e o que piorou no teatro feito em Minas Gerais?

Tivemos, ultimamente, pequenos, porém importantes avanços no teatro belorizontino. A consolidação de espaços de criação, formação de atores e cidadãos e divulgação do teatro (como a ZAP18 e o Galpão Cine Horto), e das sedes de grupos utilizados como espaços de apresentação e troca com a comunidade; a criação do edital “Cena Minas”, que visa a formação de público, a manutenção de companhias teatrais e a aquisição de equipamentos para circos do estado; a edificação do Verão Arte Contemporânea como evento coordenado por artistas, abrindo espaços para a divulgação de novos trabalhos, companhias e pensamentos; e a criação dos fundos estadual e municipal de cultura, que garantem verba para o fomento à arte no estado, independente das leis do mercado. Sabemos que estes fatos e programas ainda são pouco diante da realidade teatral da cidade e do estado (e em alguns casos, mal regulamentados) e que ainda temos uma grande luta pela garantia destes programas como políticas públicas que assegurem a todos os cidadãos o direito constitucional ao acesso à cultura. Bom exemplo disso foi a recente transformação do FIT (Festival Internacional de Teatro) em Lei do Município de Belo Horizonte, garantindo sua realização independentemente dos programas de governos que virão.

Fenômeno de público, a Campanha de Popularização do Teatro e da Dança é alvo de crí­ticas, principalmente por causa do grande número de comédias na programação. O que vocês têm a dizer sobre isso?

Diante da Campanha de Popularização, duas formas de encarar a função social do teatro podem ser destacadas. Uma primeira que responde mais prontamente à demanda de parte expressiva da população, que procura o teatro como fonte exclusiva de diversão, de entretenimento. Em geral, ao responder tão prontamente a essa demanda, esse tipo de teatro acaba por reforçar uma visão mercadológica e a contribuir com a fornação de um público aliendado, acomodado. Uma outra forma de conceber a função do teatro pode ser considerada como sendo mais investigativa, mais comprometida com uma reflexão crítica sobre a realidade. Em geral, o teatro nesta perspectiva propõe uma forma sensível de encarar o mundo.

Este evento é realmente um sucesso de mercado. Vende, dá lucro, demanda um trabalho burocrático (não criativo) de seus organizadores e conta ainda com patrocinadores de peso, através das leis de incentivo. Queremos que as pessoas freqüentem o teatro. O fato de a população de BH ir ao teatro durante a Campanha é uma vitória dos produtores e da cidade. Mas, cabe aos artistas refletirem sobre o que apresentam a esses espectadores, enquanto visão de mundo. E lutar contra a imbecilização de nossa sociedade, fugindo dos padrões alienantes da TV, do formato sitcom, da perpetuação de preconceitos.

Além disso, cria-se um nó: a organização exige que as produções cobrem mais caro durante o ano para garantir a participação na Campanha, única época do ano em que estamos isentos de cobrar a meia entrada.

Sempre é possível encontrar espetáculos de qualidade na programação. Mas o que temos que entender é que a Campanha de Popularização é um evento organizado por produtores que encaram seus espetáculos como produtos a serem vendidos, visando exclusivamente o lucro. Mas existe um teatro que não cabe nesse formato. Um teatro feito por artistas, que querem formar um público consciente, inquieto, que não se interessa exclusivamente pelo divertimento. Este teatro, por não seguir as regras do mercado e por ser essencial na formação da identidade dos membros de uma sociedade, precisa do apoio das instituições públicas para existir. E deve contar com políticas púbicas, transparentes, garantidas por lei, que o viabilize.

Qual é o papel da crítica no fomento da cena teatral?

Cabe à crítica conhecer a realidade teatral brasileira, mineira e belorizontina e saber reconhecer a importância de uma obra teatral neste contexto. Vislumbramos a crítica como uma forma de abrir espaços para a discussão e a reflexão sobre o teatro e sua força no mundo. Claro que um crítico teatral deve conhecer os fundamentos da cena. Mas sentimos falta de uma crítica que saia da lógica competitiva do mercado, contestando os mecanismos de opressão e valorizando o pensamento crítico diante da realidade. Faz muita falta em Belo Horizonte uma crítica preocupada com os impactos sociais, estéticos e políticos de uma obra, menos envolvida com rankings e listas de mérito.

As leis de incentivo realmente estimulam a produção?

A produção mercadológica, talvez. As leis de incentivo estimulam a lei do mercado, que, em geral, não coincide com as “leis da arte”. Elas funcionam assim: um proponente apresenta uma proposta, solicitando uma verba para a realização de um projeto cultural. O poder público garante, para alguns, o direito de solicitar essa verba junto à iniciativa privada que tem como estímulo a dedução de impostos devidos ao governo. Diante dessa aprovação, os proponentes devem buscar, junto às empresas, verba para a realização do seu projeto. Para chegar até uma empresa, contratam captadores, que levam propostas culturais até os responsáveis dentro das empresas, apenas fechando negócios, embolsando dinheiro sem realizar nenhuma etapa do projeto. E, quando conseguem sensibilizar uma empresa, os projetos fazem propaganda institucional para essa patrocinadora. Portanto, uma idéia contemplada com uma lei de incentivo, deve atender de alguma maneira aos interesses lucrativos da iniciativa privada. As leis de incentivo utilizam recursos públicos para satisfazer os desejos dos departamentos de marketing das empresas. E para atender a um teatro que não responde à lógica mercantil, temos que repensar essa forma de viabilização. A classe teatral brasileira, quando se uniu e conseguiu dialogar com governantes dispostos a pensar a cultura como política de Estado criou alternativas importantes como as Leis de Fomento ao Teatro das cidades de São Paulo (referência nacional) e Porto Alegre e a proposta original do Prêmio Teatro Brasileiro (recentemente enviado ao Congresso pelo Presidente Lula, ainda sem lei regulamentar, através do chamado Programa Procultura).

De que o teatro precisa neste momento?

O teatro no Brasil ainda precisa ser reconhecido como bem simbólico, essencial para a vida em sociedade. O desejo de transformar experiências em símbolos é essencial à vida humana e sem ele, nos tornaremos egoístas e duros. E a cultura, como todo direito previsto na Constituição de nosso país, deve ser assegurada a todos pelo Estado brasileiro. Para isso, precisamos de políticas públicas, previstas em lei, que garantam a todos o direito de produzir e ter acesso aos bens simbólicos da sociedade. Precisamos urgentemente pensar em alternativas que garantam a realização de trabalhos que apostem na pesquisa de linguagem continuada e em relações estreitas com a comunidade.

O teatro de grupo continua sendo uma alternativa?

O teatro de grupo é, sem dúvida, uma alternativa para artistas que buscam desenvolver um trabalho continuado, de estreito diálogo com outros artistas e com a comunidade. É claro que ele não é a única alternativa para isso. Nem deve ser. Mas, como vem se destacando como uma atividade que questiona a lógica do mercado, deve contar com o apoio do poder público e da sociedade civil. O teatro de grupo é tido como uma característica do Estado de Minas Gerais, símbolo de reconhecimento e prestígio na cena nacional. É inegável que grupos como o Galpão, ZAP18, Trama, Giramundo, Acômica, Oficcina Mutimedia, Armatrux (apenas alguns exemplos) já produziram um bem imensurável para a sociedade e compõem um patrimônio de Minas e do Brasil. E, portanto, devem ser estimulados e protegidos como tal. Fomentar o surgimento de novos grupos e oferecer condições para seu pleno funcionamento é obrigação de um país que queira se desenvolver.

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Vozes da experiência


Os diretores Pedro Paulo Cava e Jota Dangelo conversam sobre os dilemas das artes cênicas

Ailton Magioli


Não é fácil fazer teatro no Brasil. Mas isso não desanima Jota Dangelo e Pedro Paulo Cava, nomes importantes das artes cênicas mineiras. Em bate-papo no Teatro da Cidade, a dupla critica as mudanças na lei de mecenato propostas pelo Ministério da Cultura, reclama de empresas e gestores especializados em intermediar a produção cultural e garante: a falta de críticos especializados faz falta ao teatro de Minas Gerais.

Atentos à cena contemporânea, os dois recomendam cuidado a jovens grupos. “Alguns deles se tornaram massa de manobra de uma pseudopolítica cultural que se instalou em alguns estados. Em Belo Horizonte, isso foi de uma clareza absoluta. Manipulam-se os recursos para esse tipo de gente”, afirma Cava. “Em alguns espetáculos noto que o pessoal está mais preocupado em fazer charada que teatro”, adverte Dangelo.


O que melhorou e o que piorou no teatro feito em Minas Gerais?

Jota Dangelo – A coisa mais importante foi a facilidade que as pessoas têm, hoje, de se formar em uma escola profissionalizante, em curso para atores. Com isso, obviamente, multiplicaram-se as possibilidades de se encontrar bons atores, bons diretores. Evidentemente, também se multiplicaram os grupos, nem sempre de muita qualidade. Há um problema sério nessa profissão: o ator tem de ser chamado, ele não sai da escola e vai fazer teatro. Como isso às vezes não acontece, alguns acabam se juntando para formar um grupo. E aí se multiplicam os grupos.
Pedro Paulo Cava – O Dangelo tem razão na questão da escola. Participei de uma, a do Ronaldo Boschi – o Centro de Pesquisas Teatrais, nos anos 1960 e 1970 – e depois fundei a Oficina de Teatro, em 1981, embrião de outras escolas, inclusive a do próprio Palácio das Artes. Agora, outra coisa que contribuiu para a melhoria das escolas de teatro foi o aumento do número de casas de espetáculos. O Teatro da Cidade foi a primeira casa particular de Belo Horizonte construída por um artista. Na época em que a abri, só havia teatros públicos aqui. Começamos a obra em 1987, inauguramos em 1990. Vamos fazer 20 anos agora. Acho ruim o fato de todas as companhias, grupos e produtores – que antes faziam com recursos próprios ou de marketing de empresas, em parcerias espontâneas – terem se tornado reféns das leis de incentivo. Criou-se uma figura estranha no meio: as empresas que intermediam e o gestor cultural, que, se puder atrapalhar, faz tudo para isso.

Fenômeno de público, a Campanha de Popularização do Teatro e da Dança é alvo de críticas, principalmente por causa do grande número de comédias na programação. O que vocês têm a dizer sobre isso?

JD – Acontece um fato estranho em relação a essa campanha. A impressão que se tem é de que o público belo-horizontino resolveu eleger a campanha para ir ao teatro. No resto do ano, ele não estaria interessado. Chega a hora da campanha, é hora de o público se voltar todinho para as artes cênicas. Então, é um fenômeno estranho, porque talvez Belo Horizonte seja a única cidade brasileira em que o evento, que vem de muitos anos, persistiu. Verdade que há número exagerado de espetáculos e comédias. Outro dia mesmo, conferi a programação para ver se ia a alguma peça. Nada me atraía.

PPC – A campanha começou em 1973-74. A primeira foi feita no grito pelo Júlio Varela e por Edi Barreto Mendes. Logo depois, como presidente da extinta Fatedemg, assumi o projeto e vendemos 500 e poucos ingressos. Foi um sucesso. Hoje, vendem-se 360 mil. É o maior evento teatro do país, não tenho dúvida. É alvo de críticas – primeiro, porque é um sucesso; segundo, porque realmente há coisas que precisam ser críticas. Mas a questão não é o número grande de comédias. O brasileiro gosta de comédia. O problema, às vezes, é a qualidade de determinados espetáculos e o oportunismo de algumas pessoas. Elas jamais fizeram temporada, uma produção, mas fazem algo para poder entrar na campanha, para ganhar algum dinheiro para começar o ano. Isso, dividido por 12 meses... Quer dizer: se pegarmos o salário do ator, não dá para ele se sustentar durante o ano. A campanha realmente tem uma fórmula de sucesso, o público que vai ver essas comédias é das classes C e D, principalmente jovens.

Qual é o papel da crítica no fomento da cena teatral?

JD – No momento, é zero. Não há crítica. Aliás é o que falta ao teatro mineiro. Mesmo quando há alguns críticos, eles não escrevem regularmente. Hoje não há críticos de teatro, mas de espetáculos, que escrevem sobre tudo: dança, música, teatro. Falta não apenas fazer crítica, mas fazer parte do universo das artes cênicas para dizer também os problemas que a classe enfrenta e coisas relacionadas à política das artes cênicas.

PPC – Acho necessário voltar a fazer um curso, como na época da Oficina de Teatro, que formou vários críticos. Na época, trouxemos Yan Michalski, Edelcio Mostaço e outros especialistas, formamos alguns críticos aqui na imprensa. Está faltando dar essa cutucada nos jornalistas da área. A cutucada pode ser um curso de crítica, um curso intensivo sobre como ver um espetáculo teatral e também sobre como estar dentro da problemática do setor, como o Dangelo falou. A crítica já teve papel mais importante do que tem hoje.

As leis de incentivo realmente estimulam a produção?

JD – Hoje, é impossível pensar em produção nas artes cênicas sem leis de incentivo. Fora o filme Lula, o filho do Brasil, todo mundo precisa das leis. Mas elas têm sua face perversa, suas distorções , que não serão resolvidas como quer o ministro da Cultura, Juca Ferreira. Ele está preconizando mudanças de tal maneira que deixará de existir o mecenato para ficar só o fundo cultural. Isso é viés ideológico, é estatizante, vai acabar em grupinho pequeno dizendo o que vai ser beneficiado e o que não será. Se bem que tenho informação de que a mudança da lei não vai para a frente.

PPC – Só uso lei de incentivo para a manutenção do Teatro da Cidade. Nunca recorri a ela para espetáculos. Em todos eles acabo, de certa maneira, obtendo um ou dois patrocínios para que sejam realizados por meio de marketing direto para as empresas. Como estou fazendo isso repetidamente, vamos fidelizando esses patrocinadores. A proposta do ministro da Cultura de acabar com a lei é ditatorial, a classe artística não foi ouvida. Tanto Caetano Veloso como Zé das Tranças, que tem um congado lá em Matipó, têm direito de acesso à lei. Trocá-la por um fundo, que vai ficar na mão de um burocrata da cultura e, em geral, tem uma cor partidária... Encarregar esse burocrata de determinar a política a ser adotada é tirar a roupa de um santo para vestir outro. O ministério alega que as empresas estão determinando a estética da cultura brasileira. A partir de então, seria o governo. Ou seja, nós vamos voltar ao tempo da ditadura. Isso não vai passar no Congresso.

De que o teatro precisa neste momento?

JD – Tenho uma ideia meio esdrúxula, não apenas em relação ao teatro. Vejo a cultura de maneira tão diferente. Mais que todas as artes, o teatro é coletivo. Há necessidades tão específicas de cada grupamento, de cada produtor, que fica difícil falar em política cultural. Quando ouço falar em política cultural, tenho a impressão de que se pode uniformizar as coisas. Na política para o teatro e as outras artes, precisa-se daquilo que estabelecemos há muito tempo: ao Estado cabe simplesmente estimular, divulgar e fazer com que o acesso à cultura seja o mais amplo possível. Não mexam no processo criativo, por favor. Isso cabe a quem cria.
PPC – O que está faltando ao teatro é qualidade, além de uma coisa que a gente fazia nos anos 1960, 1970 e meados da década de 1980. Os artistas se reuniam para pensar o que é produção, o que é a coisa do movimento cultural. Hoje, vejo reuniões para pensar políticas públicas de cultura. Isso não interessa muito para o artista, não. Para ele, que está na ponta e é beneficiado ou prejudicado por essas políticas, o importante é saber como divulgar o trabalho, como vai apresentá-lo, que público vai ter.

JD – Como vai sobreviver.

PPC – Falta à classe teatral ou cultural descer do salto alto e deixar de achar que é vanguarda. Não somos vanguarda de nada, estamos vivendo um momento extremamente caótico, em que há desinformação total a respeito do que é arte e cultura. E ainda há a figura do gestor botando lenha na fogueira, dizendo que eles é que vão determinar que arte e cultura podem ser feitas neste país. Isso é uma espécie de censura.

JD – É preciso tomar um pouco de cuidado para a gente não cair em esparrelas, em armadilhas, como vejo hoje muito difundida uma tal de democracia direta. É mais ou menos aquela em que você faz consultas diretas como se as maiorias fossem a verdade. É preciso ter cuidado com esse tipo de coisa, porque nem sempre as pessoas estão em condições de decidir. Cuidado com isso, porque a cultura, quando evolui, evolui com experiência. É preciso ter avanço.

O teatro de grupo continua sendo uma alternativa?

PPC – O chamado teatro de grupo, hoje, vem para desunir a categoria. Ele foi um braço armado de determinados políticos, que chegaram ao poder com o objetivo de dividir a categoria, achando isso exatamente na chamada estética. Esses grupos de teatro de vanguarda, chamados de ‘teatro cabeça’, têm um tipo de patrocínio direto do Estado que mantém até o salário dos atores. Ao contrário dos produtores, obrigados a fazer o salário na bilheteria. Esses jovens grupos se tornaram massa de manobra de uma pseudopolítica cultural que se instalou em alguns estados. Em Belo Horizonte, isso foi de uma clareza absoluta. Manipulam-se os recursos para esse tipo de gente, porque o resto que está aí não presta. E é a coisa da falta de memória, também. Chega-se ao poder e apaga-se o que está para trás. É o mesmo que fazer a revolução de Mao Tsé-tung em um país capitalista.

JD – É preciso ter cuidado. Em alguns espetáculos que tenho visto, noto que o pessoal está mais preocupado em fazer charada que teatro. Você não sabe exatamente o que eles querem com o espetáculo.

PPC – O jovem artista de hoje quer falar mais do próprio umbigo que do coletivo. Eu e o Dangelo, que foi pai de todos nós, somos da geração do coletivo. Claro que, em determinado momento, fizemos espetáculo sobre a angústia do homem, a questão existencial. Mas teatro não pode ser só isso. E também não pode ser uma forma hermética, charada para determinado tipo de público. Algo que não precisa e, aliás, nem quer mais de 20 espectadores. Isso só reduz informação. Não é prestação de serviço, é para um grupo de iniciados.

JD – Tenho acompanhado a coisa no eixo Rio-São Paulo, está ocorrendo a mesma coisa lá. Dificilmente, os produtores cariocas e paulistas – com raras exceções – conseguem fazer temporada de três meses. É, no máximo, um mês, um mês e meio. O que acontece? O sujeito está pegando patrocínio, aquilo pagou a produção, ele não está mais interessado em bilheteria não. Aquilo acabou e ele já quer fazer outro espetáculo. O mais prejudicado é o ator, que perde o público.

Estado de Minas - Ailton Magioli - 31/1/10

domingo, 19 de julho de 2009

Jerzy Grotowski


"É necessário dar-se conta de que o nosso corpo é a nossa vida. No nosso corpo, inteiro, são inscritas todas as experiências. São inscritas sobre a pele e sob a pele, da infância até a idade presente e talvez também antes da infância, mas talvez também antes do nascimento da nossa geração. O corpo-vida é algo de tangível."


Jerzy Grotowski.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Dance, senão estamos todos perdidos.


Pina Bausch morre aos 68
O mundo da dança está de luto. E a razão para tanto desalento não podia ser mais triste: Pina Bausch, um dos maiores nomes da dança moderna e contemporânea, morreu ontem, aos 68 anos. A coreógrafa alemã, que revolucionou de maneira contundente a forma de dançar ainda nos anos 70, foi recentemente diagnosticada com câncer, segundo comunicado do Tanztheater Wuppertal, companhia criada por ela e com a qual criou a maior parte de seu legado.
Ursula Popp, porta-voz do grupo, afirmou que Pina teve "uma morte repentina e rápida, cinco dias após receber o diagnóstico de um câncer", e que ela foi internada no hospital para fazer exames, devido a um estado de fadiga intensa, e "não saiu de lá."

Pina Bausch havia estreado na última sexta-feira seu novo espetáculo com título provisório de "Uma Peça de Pina Bausch 2009". Aclamada com longos e entusiasmados aplausos por parte do público, a peça foi apresentada no recém-reformado teatro de Wuppertal. Mal sabia o público que ali se despediria de uma revolucionária do mundo da dança.

A coreógrafa alemã dissolveu os limites entre teatro e dança e é, sem dúvida, uma das mais importantes e influentes personalidades da artes cênicas no século XX. Ela completaria 69 anos no próximo dia 27 e viria ao Brasil para uma temporada de "Café Muller" e "A Sagração da Primavera", duas de suas obras-primas, em setembro, pela Temporada de Dança 2009 do Teatro Alfa, em São Paulo.
O triste acaso é que as vendas de ingressos para a turnê brasileira começaram exatamente ontem. Em comunicado oficial, o Teatro Alfa afirma que as apresentações estão mantidas, pelo menos até segunda ordem - ou seja, um posicionamento contrário da própria companhia.
Trajetória
Pina Bausch nasceu em Solingen, na Alemanha, em 27 de julho de 1940. Estudou na mais importante escola moderna de seu país, a Folkwang, em Essen, dirigida por Kurt Jooss, onde recebeu e transformou a herança dos mestres do expressionismo, como Laban, em uma linguagem peculiar.
Estudou também na conceituada escola de dança norte-americana Juilliard, mas logo alçou voo autoral. "Ela não é apenas uma grande coreógrafa, mas também uma encenadora", opina Iracity Cardoso, diretora da São Paulo Cia. de Dança. "Uma artista que tratou temas tão importantes de uma maneira ácida e realista num certo momento e, agora, nesse início do século XXI, começou a ficar um pouco mais romântica, poética e, com muito senso de humor, mostrou-se, cada vez mais, apaixonada pela vida", afirma Iracity.

Ex-crítica de dança, bailarina e atual diretora artística da São Paulo Cia. de Dança, Inês Bogéa ressalta a colaboração de Pina para a revolução na forma de dançar, criando, ao mesmo tempo, sua marca registrada. "Os espetáculos dela são criados com perguntas descritivas e abstratas, respondidas pelo corpo, entendendo a palavra como movimento e o gesto como palavra. É uma grande artista que entende profundamente a dramaturgia do espetáculo, trabalha com a repetição e a colagem, criando sentidos que estão para além do que se vê, e nos impacta coma sensação do inusitado e do conhecido." Para Inês, "ela está para a dança como Fellini para o cinema, Shakespeare para o teatro, Van Gogh para a pintura".

Rodrigo Pederneiras, coreógrafo do Grupo Corpo, afirma que Pina Bausch promoveu uma reviravolta absoluta no mundo da dança. "Sem exageros, existe o antes e o depois de Pina", opina Rodrigo, ressaltando que a ‘explosão’ de Pina (com "Café Muller", em 1978) é praticamente contemporânea da criação do Corpo, em 1975. "Pina conseguia com economia de gestos dizer o máximo. Faz valer a frase ‘menos é mais’", avalia o coreógrafo.

Nos últimos anos, Pina Bausch e sua companhia se dedicaram a visitar cidades pelo mundo e, a partir das impressões e sensações vivenciadas nesses espaços, criar seus espetáculos. A coreógrafa esteve no Brasil com essa missão, em 2000, quando criou "Água", espetáculo que estreou em 2001. "Ela virou uma cidadã do mundo, visitando as cidades e recriando em cena as emoções que sentia como testemunha da vida de cada um desses lugares", afirma Inês Bogéa. "Pina queria que o movimento nascesse da intensidade, da individualidade", afirma o jornalista e professor Fabio Cypriano, que lançou, em 2005, um livro sobre a coreógrafa ("Pina Bausch", CosacNaify, 176 páginas), após quase dez anos de convívio com a coreógrafa. Ele diz que uma frase sintetiza o pensamento de dança que guiava a criadora: "Eu não investigo como as pessoas se movem, mas o que as move".
Alguns espetáculos
"Fritz"(1974)
"Ifigênia em Tauris" (1974)
"Sacre" (1974)
"Orfeu e Eurídice" (1974)
"A Sagração da Primavera" (1975)
"Os Sete Pecados Capitais" (1976)
"Vem, Dança Comigo" (1977)
"Cafe Müller" (1978)
"Bandoneon" (1980)
"Masurca Fogo" (1998)
"Wiesenland"(2000)
"Água"(2001)
"Nefés"(2003)
"Rough Cut" (2005)

quinta-feira, 25 de junho de 2009

o estrangeiro

Caetano gera polêmicas desde sempre e não vai parar de gerar. Eu não vou conseguir ser imparcial nessa postagem, sou completamente guiada pela música e pela palavra de Caetano desde que nasci. E desde que nasci vejo ele sendo vivo. Polêmico, provocador, engraçado, poético, absurdo, estranho, vivo. Capaz de colocar lágrima e Big Brother num mesmo disco. Artista porque desde que surgiu no mundo, está no mundo.

domingo, 21 de junho de 2009

Lavoura Arcaica e os limites


Há muito de teatro no cinema. Há muito de cinema no teatro. As Artes que cada vez se mesclam mais e mais, e deixam de ser apenas uma coisa só: "Mas esse é um espetáculo é de Teatro? Não seria dança? Música?" Alguns espetáculos são tão cheios de nuances que não conseguem ser classificados em uma categoria única. É a projeção e o vídeo que invadem os palcos e se confundem com a movimentação do ator; é um canto numa tela de cinema que se confunde com um texto absolutamente literário; é uma poesia num concerto de música que faz com que esse mesmo concerto seja muito mais do que isso. São todos espetáculos: abarcam tudo o que se pode abarcar. São espetáculos: superam os limites que os denominam.
Lavoura Arcaica (2001), longa-metragem de Luiz Fernando Carvalho, é um espetáculo. O filme, com roteiro baseado no romance homônimo de Raduan Nassar, é preenchido por muita literatura durante todo o tempo. Filme longo, textos in off, textos falados, textos poéticos, textos coloquiais-poéticos que fazem com que o espetactador se sinta na situação mágica de se estar lendo um livro. Contudo, é mais que do que isso. As imagens, verdadeiros quadros-fotografias-paisagens que consomem a tela se mistura à música que conduz aquele que assiste para dentro da estória que se configura que, por sua vez, une-se à vida dos atores, atores esses que quase não parecem atores de tão vivos - uma interpretação latente e real própria de muitos espetáculos de teatro.
Lavoura Arcaica tem uma natureza difícil de se categorizar. É um conjunto de coisas juntas e misturadas. Algo que ultrapassa os limites e palavras. Exatamente como a vida.
Nos extras do filme, o diretor fala que toda a equipe da Lavoura Arcaica passou cerca de quatro meses vivendo numa fazenda, todos juntos, isolados das outras coisas, transformando o encontro do longa metragem muito mais do que uma sequência de ensaios. Era preciso viver a estória de Lavoura Arcaica para realizar o filme proposto. "Como conhecer as coisas senão sendo-as?" A frase, de Jorge de Lima, foi bastante mencionada por Luiz Fernando Carvalho durante toda a trajetória do filme.
Para alcançar a força de Lavoura Arcaica, os atores precisaram superar a idéia de interpretação. Superar os limites impostos pelas categorias. Pensar que não se estava fazendo apenas um filme. Misturar-se à música, às artes plásticas, ao teatro, à literatura, à vida. Para esse tipo de proposta, foi necessário ser.
Termino com uma frase de Tom Jobim: "Esse negócio de entender uma coisa, tem que amar."